A mediocridade vencerá?

DSC_0021A mediocridade é um método de construção da realidade disseminadíssimo na atualidade. Desfruta a mediocridade metodológica de um prestígio tal que sua onipresença parece inescapável. Em particular, impressiona o poder de resiliência do modelo medíocre de pensamento, tendo ele resistido e prosperado face a projetos de emancipação cognitiva os mais variados. Mas em que consiste este método, o leitor deve certamente se perguntar.

Antes de passar a uma definição, importante advertir a respeito de como a mediocridade não deve ser entendida. O pensamento medíocre não se opõe à erudição, tampouco equivale à indiferença. Por um lado, deve-se notar que festejados intelectuais cultivam a mediocridade metodológica com determinação e afinco. Por outro lado, o método em questão não viceja no desinteresse, mas pulsa em função de um profundo desprezo pelo interesse alheio. A bem da verdade, a mediocridade parece ter mesmo pretensões universalistas, não respeitando classe social, nacionalismos, ideologias ou religiões. A mediocridade parece ser o grande elemento de coesão da nossa autoproclamada sociedade da informação.

A mim me parece que a mediocridade metodológica constrói-se sobre uma aversão à curiosidade cognitiva. O modelo, em essência, tem a pretensão de tornar prescindível a contemplação criativa, buscando manter o cérebro arrebatado pela atitude mental ora criticada em constante estado de letargia. Em outros termos, o pensamento medíocre é fundamentalmente dogmático. De fato, trata-se de um dogmatismo pautado por duas premissas intransponíveis: (i) o que parece ser é; (ii) o que é deve continuar sendo.

Por consequência da operacionalização dogmática dessas premissas, a mediocridade metodológica promove a máxima redução do âmbito cognoscível dos objetos do conhecimento, conduzindo a uma exaltação histérica da realidade aparente e da necessidade de sua perpétua reprodução. Em suma, a mediocridade metodológica dita o imobilismo, permitindo eventualmente movimentos inerciais impulsionados pela construção difusa e irrefletida da necessidade de se mover.

Com algum receio, vejo que nossa pretensa sociedade da informação aprofunda aceleradamente a utilização da mediocridade metodológica em seus processos de construção da realidade. Diria, sem pretensões novidadeiras, que a proliferação do instrumental para massificação da comunicação foi acompanhada por uma subscrição quase total às teses da mediocridade metodológica. Nesse contexto, não me parece pouco significativo o papel do quarto poder na promoção do pensamento medíocre no mundo contemporâneo.

A respeito da imprensa convencional, já há muito se especula que “sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o hábito funesto dos juízos ligeiros”*. Evidente, porém, que não apenas os jornalões, impressos ou televisionados, foram responsáveis por projetar os ditos “juízos ligeiros”. Em especial, não há dúvida que muito competiram na disseminação dos “juízos ligeiros” as indústrias do entretenimento e da publicidade. Note-se, inclusive, que do encontro da política mediocrizada com a publicidade ávida por mediocrizar foi gestado o aviltante mercado do marketing político, o mais pernicioso desdobramento da mediocridade a ser enfrentado por qualquer projeto democrático de emancipação.

Pois aí estamos, senhoras e senhores. Resta, contudo, indagar, a mediocridade vencerá? Diriam os pessimistas que ela já venceu. Eu, particularmente, não penso assim. A mediocridade metodológica não é um dado da natureza, tampouco uma inerência inescapável. Enquanto método, a mediocridade é um “saber-fazer” fundado sobre reducionismos dogmáticos. Para ser medíocre, há de se esforçar. Trata-se de propósito perseguido com dedicação por boa parcela da população, constituindo, quem sabe, o projeto civilizacional dos nossos tempos líquidos. Trocando em miúdos, aprende-se a ser medíocre, e aprende-se a muito custo.

Felizmente, ao lado daqueles atraídos por dogmatismos e reducionismos, sempre houve, e haverá, forças igualmente comprometidas em promover o encontro da curiosidade, da contemplação e da criação nas diversas instâncias do viver. É preciso coragem e comprometimento para resistir à imposição da mediocridade metodológica, mas nada está perdido. À batalha.

Escrito por Bruno R.

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*A passagem foi retirada de “A correspondência de Fradique Mendes”, de Eça de Queirós, livro publicado em 1900.

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