Algumas reflexões em razão do término da Faculdade

cropped-dsc_0693.jpgEis aqui o absurdo: buscamos certeza em meio ao caos. Tudo nos indica que a vida ou é desprovida de um significado último que a determine ou, ao menos, que essa razão nos é inalcançável. A conclusão, não se assustem, independe de credo, crença ou ideologia.

Aqueles que não creem numa metafísica de logo se prontificarão a subscrever a tese. Do mesmo modo, aqueles que professam alguma fé parecem impelidos a anuir. Quem não conhece o provérbio segundo o qual “Deus escreve certo por linhas tortas”? Ora, se os desígnios do Senhor são incognoscíveis, estamos todos assentes que ou a vida é vazia de razão ou sua razão é intangível. Voltamos, pois, ao ponto inicial: quando buscamos certeza em meio ao caos, tornamos evidente o absurdo da vida.

Este absurdo a que me refiro não reside no acaso ou no imponderável. Este absurdo não é a aparente irracionalidade da natureza ou a incerteza do porvir. O absurdo, aqui tomado como substantivo, é a milenar e inglória batalha que a humanidade trava contra o caos. O absurdo consiste no ímpeto humano por subjugar o imprevisível, sabendo-o incontrolável. O absurdo é, em suma, a incompreensível vontade de viver frente ao destino fatal que a todos nos aguarda. O absurdo  é a maior arma da humanidade contra a morte.

O ser humano sabendo-se mortal, conhecedor de sua fragilidade, busca viver uma vida incondicional. Este homem absurdo busca vencer a morte por meio da vida. O absurdo é o nosso maior aliado e nosso maior guia. Ele redimensiona nossos objetivos e nos ensina que o desejo de preservar o presente nos mantém distante do fim. Sua luta é pela a imortalidade de cada dia.  Sua batalha é a batalha pelo possível. Dizia um homem absurdo: “Outros que contem/passo por passo/eu morro ontem/ nasço amanhã/ando onde há espaço/ meu tempo é quando.”

O mundo em que vivemos, entretanto, escamoteia o absurdo. No tempo presente sentimo-nos senhores do destino. Esquecemos deste confronto milenar que vem sendo travado, tratando-o como guerra vencida. Superestimamos nossas forças e renegamos o nosso principal aliado. Sem o notar, nos sepultamos em vida, quando com a vida deveríamos nos imortalizar.

Eis um quadro do mundo atual: acordamos todos os dias e fazemos planos – planos para hoje, planos para a próxima semana, planos para o próximo mês, planos para o próximo ano, planos para todo o resto de nossa vida. Depositamos diligentemente no amanhã a nossa expectativa de felicidade, como se nossa finitude  não passasse de uma fantasiosa fábula. Engolimos o almoço, pois queremos saborear o jantar.

Deste modo, correm-se os dias, passam-se os meses, vencem-se os anos.  Subitamente aquilo que era futuro do presente torna-se pretérito imperfeito. O que outrora fora um indicativo resplandecente nos surpreende como um subjuntivo amargo.  De uma hora para outra, percebemos que a vida, para qual tanto nos preparamos para viver, nos foi tomada de assalto. Negar o absurdo, mais do que querer vencer a morte, é crer que a morte pode ser vencida. Negar o absurdo é negar, pois, a própria vida.

A universidade, há cinco anos, apresentava-se como um passo necessário em direção às nossas vidas. Iríamos começar uma fase, que ao término, nos autorizaria a viver. Estamos, hoje, autorizados a viver? O erro encontra-se na própria pergunta. O mundo tenta turbar nossa visão e nos desviar do absurdo.

Acaso ainda estejamos nos preparando para viver, quando teremos concluído essa preparação? Quando nos será concedida a permissão para que possamos realmente desfrutar de nossas vidas – quando passarmos num concurso? Quando nos tornarmos advogados? Quando nos tornarmos ricos? Quando nos casarmos? Quando tivermos filhos?

Não podemos condicionar nossas escolhas e nossos caminhos a uma expectativa de futuro. Não entendamos isso como uma ode a uma vida de excessos e desregramento. O absurdo não nos impõe irresponsabilidade, mas incondicionalidade. Devemos viver nossa vida de modo que cada escolha e cada experiência sejam fins em si mesmos.

De tempos em tempos, conseguimos entrever, ainda que timidamente, o confronto do caos contra a certeza. Em momentos críticos percebemos a real dimensão de nossas vidas. Por breves segundos, podemos sentir que estamos, com muita luta, dor, sofrimento e também alegria, abrindo espaço por entre começo e fim e nos posicionando em algum lugar no meio dos dois.  Sentimos nossa fragilidade e nosso poder. Sentimos o absurdo.

Amigos, hoje é um desses momentos críticos. Duas perguntas parecem se nos impor: chegamos ao começo do fim ou ao fim do começo? Mergulhados na luta de vida e morte, somos arrebatados simultaneamente pela aflição do fim e a ansiedade do começo. O absurdo nos amedronta e nos motiva. O absurdo, mais uma vez, nos mantém vivos.

Hoje não é o fim do começo ou o começo do fim. Estamos onde sempre estivemos, no meio entre os dois – vivos. Não somos promessas natimortas de um futuro glorioso ou cadáveres putrefatos de sucessos alcançados. Somos nós – vivos e lutando. Eu sinto o absurdo e ouço seu conselho. Ouçamos seu conselho: “a oeste a morte/contra quem vivo/ do sul cativo/ o este é meu norte.”

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3 Respostas para “Algumas reflexões em razão do término da Faculdade

  1. Um texto belo! Um conteúdo paradigmático em plena sintonia com os estertores da pósmodernidade.Esse texto porém não se adégua às expectativas de uma sociedade ansiosa e submissa ao brilho rasteiro das falas espetaculosas e triunfalistas.È um texto extremamente reflexivo, profundamente filosófico, espelho das inquietantes indagações que ilustram a contemporâneidade. Prazer em conhecer-te Bruninho!

  2. Bruno, vc foi brilhante, parabéns por este belo e profundo texto. Deveria ser publicado para reflexões dos jovens. Pena você não ter sido escolhido, mais será que seria por todos entendido? Acho que não, vê que seus próprios colegas escolheram outro, com certeza menos profundo …. Mais vá em frente, seu brilho já está reluzindo. Aproveite.

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